sábado, 27 de fevereiro de 2010

Novo Enem será o fim do vestibular? A resposta do DCE da UFC


De Rodrigo Santaella, do Diretório Central dos Estaudantes da Universidade Federal do Ceará, recebi o comentário abaixo, em resposta ao post Nação Zumbi, DCE da UFC contra o Enem (e a crase), Luizianne e a Guarda Municipal.
Caro Plínio,

Quanto à crase, de fato foi um erro. Pedimos desculpas aos que perceberam. Como encomendamos a faixa por telefone, não nos atentamos para o fato de que eles poderiam esquecer a crase. Quando vimos, já era tarde demais.

Quanto ao ponto mais importante, os motivos pelos quais temos posição contrária à proposta apresentada pela UFC para a nova metodologia de ingresso à universidade, reproduzo aqui uma nota produzida por nós, do DCE-UFC, em conjunto com grande parte do movimento estudantil da UFC e UECE.

Peço, como direito de resposta, que a nota seja reproduzida como um post do seu blog. Se não for aceito, pelo menos fica registrada aqui nos comentários.»
Eu: No comentário deixei reposta ao Rodrigo dizendo que a menção à crase foi em um tom jocoso. E que, obviamente, não é a capacidade de pôr o sinal de crase no lugar correto [ou deixar de pô-lo] que vai definir a capacidade de alguém.

Abaixo, segue a nota, na íntegra, enviada pelo DCE da UFC

«NOVO ENEM: SERÁ O FIM DO VESTIBULAR??

Em março de 2009, o MEC propôs um novo modelo de vestibular, substituindo o modelo atual por uma avaliação nos moldes do ENEM, que passaria a ter 180 questões de múltipla escolha e redação. O novo ENEM está sendo propagandeado massivamente pelo governo em conjunto com a grande mídia como sendo o fim do vestibular, uma grande mentira. Esse novo modelo representa um supervestibular unificado das universidades federais, o qual daria a possibilidade aos estudantes de serem avaliados para as vagas em diversas instituições em todo o país. Segundo Fernando Haddad, isso representaria o fim do vestibular.

Ora, o vestibular é um instrumento de seleção que somente tem sentido porque o direito à educação superior não é assegurado a todos e a universalização deste direito não está assegurada nesta proposta.

Esse supervestibular vem sob uma nova roupagem na tentativa de mascarar as idéias centrais do projeto: elitizar ainda mais o acesso à Universidade, reformular o currículo do ensino médio por base nos conteúdos abordados no ENEM, substituir o desempenho acadêmico dos estudantes ingressantes nas instituições de ensino superior (ENADE) e validar a certificação de jovens e adultos no ensino médio. O serviço terceirizado utilizado pelo MEC foi catastrófico.

A recente fraude e o adiamento do ENEM 2009 custaram aos cofres públicos cerca de R$35 milhões. E o mais surpreendente é que as Universidades estão assimilando que a avaliação de seus futuros estudantes deve ser um serviço subcontratado.
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O carro chefe da campanha do MEC é a mobilidade acadêmica. Na prática, com o Novo ENEM os vestibulandos podem tentar vaga em universidades de qualquer lugar do Brasil, mas somente uma minoria pode efetivamente migrar para a região de interesse.

Hoje, vestibulandos de classes sociais mais favorecidas já possuem a tal mobilidade, independente de qualquer critério seletivo nas universidades. O que acontece com o Novo ENEM é que a mobilidade, para os que já têm acesso a ela, se torna burocraticamente mais fácil, o que implica a diminuição das chances de entrar na Universidade pelos que não têm acesso a essa mobilidade. Por exemplo, as poucas vagas da UFC que seriam preenchidas atualmente por estudantes de escolas públicas do Ceará, passariam muito provavelmente a ser preenchidas por estudantes de classe média do sul e sudeste.

Enquanto isso, os estudantes de escolas públicas daqui teriam suas vagas garantidas em outras Universidades menos “concorridas” em outros estados do Brasil, mas não teriam condições financeiras de se sustentarem nestes lugares. Isso acontece porque não existe uma política séria de assistência estudantil para os estudantes das universidades públicas brasileiras, tais como residência universitária, restaurantes universitários, bolsas estudantis, entre outras.

Garantir a mobilidade de todos sem assistência estudantil é, na prática, tornar o sistema mais excludente e elitista, além de contribuir com a intensificação do processo de criação de alguns centros de excelência, por um lado, e de Universidades “escolões,” por outro. Na prática, portanto, é maior a exclusão com o modelo de vestibular unificado, já que a dificuldade de ingresso de alunos de escolas públicas aumenta ainda mais.

Todo o ensino médio hoje é um grande preparatório para o vestibular e com a mudança deste não poderia ser diferente. O Ministro Haddad de Lula, já apresentou o projeto de reforma no ensino médio, o qual foi aprovado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Nele consta a proposta de substituir as 12 disciplinas tradicionais por quatro grandes eixos temáticos, são eles: ciência, cultura, tecnologia e trabalho.

O eixo trabalho, por exemplo, evidenciando a postura neoliberal do governo, firma um compromisso com o mercado de trabalho e coloca a formação humana em segundo plano representando um ataque direto aos secundaristas e aos docentes do ensino médio.
Outra consequência importante a ser ressaltada em relação ao Novo ENEM é a questão da não valorização do conhecimento produzido regionalmente.

A adoção de uma avaliação única para todo o território nacional acaba por homogeneizar o conteúdo abordado, em uma clara opção por desrespeitar as peculiaridades da cultura, história, geografia, literatura e demais áreas concernentes ao saber local, principalmente das regiões mais pobres, como norte e nordeste. É claro que tal consequência também repercute nos cursos de licenciatura das universidades.

Com a reformulação dos conteúdos do ensino médio, abre-se um precedente para a readequação dos currículos das licenciaturas, porém não houve ainda, dentro do espaço acadêmico, discussões sobre os moldes desta mudança.

Esse projeto do Novo ENEM não pode ser entendido de maneira isolada, ele faz parte do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação), uma espécie de PAC da educação. Nesse plano, os decretos REUNI, PROUNI, ENADE, que privilegiam o setor privado em detrimento do público, representam os pilares de um projeto de matiz neoliberal que o governo Lula/PT aplica desde seu primeiro mandato, na educação brasileira.

Além de todos os absurdos destacados acima sobre o desmonte educacional, em todos os níveis, proporcionado pela adoção desse novo modelo de ingresso na universidade, a forma como o Novo ENEM tem sido implementado nas universidades federais é totalmente anti-democrática. Aqui na UFC não foi diferente, somente após a grande pressão dos setores combativos do movimento estudantil, foram marcados debates atropelados, na mesma semana em que ocorrerá próximo Conselho Universitário (CONSUNI), no qual a reitoria já manifestou a sua resolutividade em aprovar a adesão ao Novo ENEM, mesmo os espaços de discussão tendo sido escassos ou simplesmente não existido.

Nós, que defendemos a construção de uma universidade com caráter público, onde a camada pobre e explorada da sociedade tenha acesso aos seus espaços, sem precisar passar pela catraca do vestibular, seja ele como for, gritamos: NÃO AO NOVO ENEM! PELO LIVRE ACESSO À UNIVERSIDADE!

O debate do acesso universal à universidade tem que começar em algum momento. Sabemos que não acontecerá do dia para a noite, mas temos clareza de que com um maior investimento em educação, em todos os níveis, se avançará para isso.»

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