quinta-feira, 25 de março de 2010

Abolição dos Escravos no Ceará Completa 126 Anos

Presença da matriz africana também pode ser vista em monumentos, como em Redenção
MANOEL LIMA - 27/12/2006


Quando província, o Estado foi o primeiro a libertar seus escravos. Em Fortaleza, maracatus e medalhas marcam evento.


O Ceará completa, hoje, 126 anos da abolição da escravatura.

Em Fortaleza, apresentações de maracatu e entrega de medalhas marcam as comemorações da data. A partir das 16 horas, o Centro da cidade receberá um cortejo de dez maracatus, uma das principais manifestações da cultura africana em nosso Estado.

Os grupos de maracatu Rei Zumbi, Nação Iracema, Quizomba, Vozes da África, Nação Fortaleza, Solar, Baobá, Afoxé Filhos de Oyá, Rei de Paus, Az de Ouro e Axé de Oxossy mostram toda a beleza do movimento e dança, com seu ritmo de cadência lenta.

Divididos entre as praças dos Correios, do Ferreira e no Calçadão C. Rolim, os grupos de maracatu se encontram, às 17 horas, em frente à Igreja do Rosário, onde haverá um ato ecumênico celebrado pela Mãe Taquinha de Oyá, coroação de rainhas e lançamento de CD com loas de maracatus.

O governador Cid Gomes (PSB) foi a grande ausência na solenidade de entrega da Medalha da Abolição ao presidente do Tribunal de Contas da União, Ubiratan Aguiar, e à Federação dos Agentes de Saúde do Estado. Ele teve problemas de saúde, segundo informou o vice-governadorFrancisco Pinheiro que o representou na cerimônia realizada nessa noite de quinta-feira, no Theatro José de Alencar.

O ministro da Previdência Social, José Pimentel, seis dos nove ministros do TCU, parlamentares federais e estaduais e dirigentes de organismos federais e lideranças empresariais prestigiaram o evento em que Ubiratan não escondeu a emoção ao discursar.

Outra ausência nota na solenidade foi a da prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, que mandou seu procurador-geral do Município, MartÕnio Mont’Alverne, representá-la.


Lembrancinhas

A libertação dos escravos no Ceará foi realizada no dia 25 de março de 1884, como conseqüência da luta encabeçada por diversas sociedades civis de combate à escravidão, utilizando a imprensa e outras manifestações públicas para sensibilizar a população sobre o problema.

Apesar do fato de, na época, já não haver um grande contingente de escravos na então província - por conta da crise econômica e das grandes secas ocorridas no fim do século XIX - o professor Eurípedes Funes, do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), considera a data um marco significativo para nossa trajetória.

“A questão de haver ou não muitos escravos não é parâmetro, e sim o fato de haver essa situação de cativeiro aqui no Ceará. Era uma período de lutas importantes, inseridas no espírito do liberalismo e no movimento republicano”, enfatiza o historiador.

Mas apesar disso, ele recorda que, assim como em outras províncias do Império brasileiro, a situação de homens e mulheres escravizados no Ceará pouco mudou após a abolição da escravatura. “A maioria dos ex-escravos podiam ser encontrados na posição de empregados, serviçais, ou seja, em condições muito semelhantes daquilo que já vivenciavam. Não houve uma preocupação de fazer uma inserção social dessa população, de distribuição de terras etc”, aponta.

Após 125 anos de abolição, e a despeito de preconceitos de que não haveria afro-brasileiros no Estado, a presença da matriz africana no Ceará ainda hoje pode ser vista em manifestações religiosas (como a Dança de São Gonçalo) e culturais (maracatu). “São manifestações emblemáticas da nossa africanidade”.

FIQUE POR DENTRO

Dragão do Mar é um dos grandes símbolos

Ainda província no reinado de Dom Pedro II (1840-1889), o Ceará foi palco de relevantes movimentos abolicionistas, que denunciavam, pela imprensa, os abusos cometidos pelos senhores de escravos e combatiam o comércio negreiro entre estados. Com os problemas econômicos e as secas que assolaram o Ceará na época, tornou-se financeiramente inviável para os senhores manter os cativos, que eram vendidos para as províncias sulistas.

Um dos nomes importantes dessa luta é o do jangadeiro pardo Francisco José do Nascimento, que passou a ser conhecido como Dragão do Mar. Em 1881, ele e seus companheiros jangadeiros se recusaram a fazer o transporte de escravos para navios negreiros que negociavam na região Sul.

Antes da abolição, em toda a província houve a libertação de escravos onde hoje são as cidades de Redenção (antiga vila do Acarape) e, logo em seguida, na Capital cearense.

Em 25 de março de 1884, o Ceará foi o primeiro a libertar seus cativos, quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea pela Princesa Isabel. A decisão foi seguida por outras províncias, como o Amazonas, e levou muitos escravos fugidos a buscar refúgio aqui. O abolicionista José do Patrocínio deu ao Ceará o título de Terra da Luz.

Karoline Viana
Repórter


Quinta 25/3/2010

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