terça-feira, 27 de abril de 2010

Falando a nossa língua

Emanuel Amaral
Encontro de Escritores de Língua Portuguesa começa amanhã no Teatro Alberto Maranhão


Ainda não é desta vez que escritores, estudiosos, leitores e curiosos vão ver em cena mais uma edição do Encontro Natalense de Escritores, que esteve em cartaz para o grande público por quatro anos seguidos na capital potiguar. O evento patrocinado pela Funcarte que começa amanhã é outro — o Encontro de Escritores de Língua Portuguesa — mas a Prefeita Micarla de Sousa confirmou ontem pela manhã, em entrevista coletiva, que o ENE está previsto para dezembro deste ano, dentro das comemorações do “Natal em Natal”. “Será um encontro mais amplo porque vai ter uma feira de livros focada para o público infantil”, declarou, durante o lançamento oficial desta primeira ação literária, o Encontro de Escritores da Língua Portuguesa — EELP — terá como palco o Teatro Alberto Maranhão, Ribeira.

As inscrições, gratuitas, estão sendo realizadas antecipadamente pela Internet (no site da Funcart), mas os interessados podem participar do evento sem inscrição prévia, ficando sujeito apenas à lotação do teatro, que é em torno dos 650 lugares. Segundo o presidente da Funcarte Rodrigues Neto, até ontem pela manhã já havia em torno de 400 inscritos.

A programação completa foi divulgada ontem durante o café da manhã num hotel da via costeira, na presença da prefeita Micarla, do escritor e professor português Carlos Reis, de Rui d’Ávila Lourido, coordenador cultural da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa – UCCLA entre outros convidados de ambos os países.

Um nome já levou falta. Previsto para realizar uma palestra de abertura, o escritor do Timor Leste Luís Cardoso Takas não compareceu ontem, e sua presença no evento ainda não foi confirmada.

Cautela no uso da lusofonia, diz escritor

O encontro literário será dividido em três eixos temáticos, que serão distribuídos durante os três dias do evento. O primeiro deles será apresentado durante a conferência do português Carlos Reis, professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Carlos Reis falará sobre “Literatura Lusófonas: elo entre continentes e culturas”. Segundo ele, é preciso ter cautela quanto à utilização do termo lusofonia, já que ainda está ligado a matriz portuguesa. “É um conceito útil, mas não podemos esquecer a singularidade das literaturas que escrevem em línguas Portuguesas”, disse Carlos Reis.

O professor diz ser cético quanto à continuidade do Português em países como o Timor Leste e Guiné Bissau. Para ele, estes países foram recentemente descolonizados e passaram por guerras violentas, que resultaram na desestruturação de instituições importantes, sendo uma delas a educacional.

O professor acredita que cabe aos países mais desenvolvidos, como Portugal e Brasil o investimento na boa utilização da língua Portuguesa. “Investir na língua portuguesa não por ser uma forma de colonialismo lingüístico, ou neocolonialismo lingüístico, mas por razões do próprio interesse desses países”, disse.

O professor afirma que o encontro é uma forma de apresentar um Brasil diferente para os portugueses. “Muitas vezes circulam em Portugal, preconceitos, lugares comuns em relação a Angola, a Moçambique e ao Brasil. Lá eles falam que o Brasil é um país exótico. Existe este tipo de ignorância em Portugal”.

No segundo dia do evento João Ubaldo Ribeiro, jornalista, escritor, roteirista e membro da Academia Brasileira de Letras – ganhador do Prêmio Camões de 2008, maior premiação para autores de língua portuguesa – conduzirá a conferência “Cosmopolismo, expressões populares e globalização”. O tema, aliás, surpreendeu o próprio escritor, que disse à TRIBUNA DO NORTE, em entrevista recente, não saber “o que era Cosmopolismo”.

No último dia do evento, o influente e versátil escritor angolano José Eduardo Agualusa encerrará as discussões literárias, levando para o público o tema “Os desafios das novas tecnologias na literatura”. Alguns dos livros de Eduardo Agualusa estão traduzidos para mais de vinte idiomas.

Na programação do encontro está prevista apresentações culturais encerrando as tardes de debates. O cantor Chico César, a Orquestra de Violoncelos da UFRN e Valéria Oliveira foram os nomes escalados para o evento.

O EELP é uma realização da Prefeitura de Natal em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UnP, UCCLA e a TAP linhas áreas.

Micarla diz que este é o “evento experimental”

Segundo Micarla de Souza, a partir do momento que o evento foi realizado em Natal, a cidade passará a ser a sede deste encontro, que já tem edição confirmada para 2011. A prefeita disse que o evento está em fase experimental e que por isso está sendo realizado no Teatro Alberto Maranhão. “Quem sabe nos próximos anos colocaremos em lugares cada vez maiores”, disse Micarla.

Em discurso, a prefeita Micarla disse que o Encontro de Escritores de Língua Portuguesa é o resultado de uma parceria firmada nos meses de junho e de julho de 2009, durante o Natal em Lisboa e Lisboa em Natal, encontros que foram patrocinados pela prefeitura local.

Também enalltecendo as ações da UCCLA, o coordenador cultural da entidade portuguesa, Rui d’Ávila Lourido, disse ser esta “a primeira vez que um encontro com este formato é realizado pela instituição portuguesa em seus 25 anos de existência”.

Serviço

Inscrições para o EELP http://www.natal.rn.gov.br/funcarte/paginas/ctd-900.html.

Tribuna do Norte
27-04-2010

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