sexta-feira, 23 de abril de 2010

Tiquipaya


A MÃE TERRA EXIGE SEUS DIREITOS

Nidia Díaz

NÃO seria arriscado aventurar que Tiquipaya, a pequena localidade da não redimida Cochabamba vai fazer história. Lá reuniram-se mais de 20 mil pessoas aferradas à última esperança de salvar o Planeta, isto é salvar a Mãe Terra.

Cinco Chefes de Estado e dois prêmios Nobel pela Paz os acompanham nesta nobre cruzada, onde se dirime a existência mesma do mundo atual.

A mídia apenas dedica algum espaço, com sorte colocarão alguma nota superficial e de intencionada subestimação do que lá acontecerá. Os presidentes do Norte rico e desenvolvido seguramente não pediram a seus assessores que ponham o tema nas suas agendas de trabalho, se em definitiva eles não se interessam com isso. As grandes multinacionais, agressoras em boa medida da natureza e do meio ambiente, possivelmente nem sequer ouviram falar do assunto. Suas casas matrizes, situadas nos enormes arranha-céus, símbolos de seu poder e da mal chamada modernidade, estão muito longe de Tiquipaya. O que é Tuquipaya?, poderiam perguntar, caso comentarem alguma coisa a respeito disso.

Contudo, lá, na até agora preterida e esquecida Bolívia, iniciou-se uma batalha que nos interessa a todos e, embora não acreditassem, até a eles mesmos, os responsáveis por que estejamos aqui e por provocarem com seu sistema de consumo extremo o aquecimento global, causa das piores catástrofes naturais das últimas décadas, responsáveis também pela dívida climática que hoje nos atinge, sobretudo aos países do Sul, onde o subdesenvolvimento, o atraso, a pobreza e a abulia dos governos neoliberais impediram construir uma infraestrutura que em tempos de desastres naturais ajude os mais necessitados e salvaguarde a segurança coletiva.

Pôr um alto e começar a respeitar e a cuidar da Mãe Terra é o alerta que a partir de Tiquipaya se envia ao Planeta. Não é casual que a Bolívia seja o palco desta batalha decisiva pela vida. Como também não é casual que seja seu presidente, o indígena Evo Morales, o líder principal.

Em carta enviada à Primeira Conferência dos Povos sobre Mudança Climática e à de Direitos da Mãe Terra, o escritor Eduardo Galeano diz aos participantes, procedentes de 129 nações e dos cinco continentes ali reunidos, que "(...) o mundo todo... deveria escutar essas vozes".

"Elas nos ensinam — acrescentou — que nós, os humanos, fazemos parte da natureza, parentes de todos os que têm pernas, asas, pes ou raízes (...) A conquista européia condenou por idolatria os indígenas que viviam essa comunhão, e por crerem nela foram açoitados, decapitados ou queimados vivos".

E precisamente por manter aceso esse fogo eterno de amor pela Mãe Terra é que Evo Morales e seu povo se apresentam hoje como ícones desta luta. Manter o culto ao que eles denominam a "Pachamama" lhes dá autoridade moral para serem os líderes e exigirem pôr fim às lamentações eternas e aprovarem em benefício de todos dois instrumentos indispensáveis: um Tribunal de Justiça Climática que julgue os depredadores da natureza, ua casa que ue estipaya em defesa da inacional e de um governo submisso aos ditames do governo dquer sejam governos, quer empresas, e a criação dum organismo mundial que defenda os direitos da Terra, porque se não há uma organização que controle as normas que se estabeleçam nas cúpulas internacionais, jamais haverá nada nem ninguém que obrigue as indústrias e os países desenvolvidos a cumpri-las.

Ambas as propostas foram feitas por Evo Morales, que responsabilizou o sistema capitalista pela deterioração acelerada do ecossistema, provocado pelas emissões de dióxido de carbono à atmosfera e pelo aquecimento global.

No discurso inaugural da Primeira Conferência Mundial dos Povos sobre Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra (Cmpcc), Evo expressou que "a causa principal da destruição do planeta Terra é o capitalismo e, como povos que habitamos, que respeitamos esta Mãe Terra, temos o direito, a ética e a moral para dizer aqui que o inimigo principal da Mãe Terra é o capitalismo".

"O sistema capitalista busca a máxima obtenção de lucros, promovendo um crescimento ilimitado, um planeta finito. O capitalismo é fonte de assimetrias e de desequilíbrio do mundo", afirmou Evo ao denunciar a pobreza em que vive metade da população mundial.

Acrescentou que "mais de 2,8 bilhões de pessoas vivem com menos de dois dólares ao dia. Para o capitalismo os seres humanos somente somos consumidores e força de trabalho, as pessoas valem pelo que têm e não pelo que são". Nesse sentido denunciou que o sistema econômico mundial imperante mercantiliza a água, a terra e até a cultura.

Finalmente salientou que "enquanto não mudemos o sistema capitalista, as medidas que adotemos terão um caráter limitado e precário", o qual estabelece um dilema existencial: "continuar pelo caminho do capitalismo ou a morte, ou empreender o caminho da harmonia com a natureza e o do respeito à vida para salvar a humanidade".

Com tais argumentos inaugurais, iniciaram as jornadas de trabalho onde milhares de participantes se dividiram em 17 mesas de trabalho para analisarem igual número de temas, entre os que destacam as causas estruturais da mudança climática, os direitos da Mãe Terra, um referendo mundial sobre mudança climática, os refugiados climáticos, a dívida ambiental, o protocolo de Kyoto, a transferência de tecnologias e estratégias de ação, entre outros,

A Declaração Final e as conclusões de todos e cada um destes temas serão entregues à Cúpula da Mudança Climática que terá lugar no México, que dá continuidade à de Copenhague e sobre a qual não poucos expressaram cepticismo, levando em conta o fracasso da anterior.

Tal e como explicou o presidente boliviano, "não teria sido necessário convocar para a Conferência Mundial dos Povos na Bolívia, se na Cúpula de Copenhague se tivessem tomado acordos para contribuir para a preservação da natureza e para eliminar políticas irracionais de industrialização.

"Queremos revelar as pretensões imperialistas do chamado Acordo de Copenhague, um entendimento elaborado por uma minoria de países que busca aumentar a temperatura global do planeta acima dos 4 ºC, fato que traria consequências catastróficas para a humanidade".

Nesse sentido, lembrou que "em Copenhague os industrializados queriam impor um documento não para salvar a vida, mas sim para alentar a política contaminadora do meio ambiente.

Com este pano de fundo e convictos de que somente a força da luta dos povos poderá conseguir que se respeite a vida no Planeta e o Planeta mesmo, decorreram as primeiras jornadas desta reunião que, quando este jornal esteja circulando, terá terminado com um grande ato de massas no estádio de Cochabamba, segundo o previsto pelos organizadores.

Tal e como aconteceu há uma década lá, quando se desencadeou a chamada "guerra da água", onde os bolivianos se enfrentaram com sucesso ao poder de uma multinacional e de um governo submisso aos ditames do governo dos EUA, tornando possível, meses depois, a vitória de Evo Morales nas urnas, as jornadas de Tiquipaya em defesa da Mãe Terra terminarão no triunfo da vida sobre um sistema condenado à morte.

Os acordos que surgirem desta Primeira Conferência Mundial dos Povos sobre Mudança Climática e em Defesa da Mãe Terra não serão esquecidos. Serão monitorados por aqueles que já são muitos, empenhados em salvar sua casa que é o habitat de todos. Tomara, como expressara Galeano, que os surdos de sempre escutassem.

Digital Granma Internacional
22-04-2010

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