sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Idade Moderna - Parte II

A Reforma Protestante de Martinho Lutero
Alemanha - 1517





“ O dia começava a clarear.
Na praça da Matriz iam aparecendo camponeses com seus burros, aguadeiros com seus odres e os mercadores apregoando seus produtos. O cônego saiu de casa, atravessou a praça saudando este e aquele e parou na porta da igreja onde, entre os avisos de núpcias, batismos, crismas e festas, afixou duas grandes folhas de papel. Releu-as por um instante e depois entrou. Os camponeses não se moveram para vê-las: eram analfabetos. O padre ainda ocupou a manhã com batismos e missas e depois foi almoçar. O vento brincava com as folhas da porta, mas parecia ser o único a dar-lhes atenção.

Várias horas depois, um meirinho aproximou-se, leu tudo o que estava na porta – inclusive as folhas – e foi-se muito satisfeito da vida: encontrou os proclamas de casamento de sua filha. Veio a noite e as folhas lá ficaram a balançar. Chegou a manhã. A vida voltou à praça. O padre a atravessou distribuindo acenos de cabeça e foi rezar a missa. Estava no meio do sermão, quando viu na porta da igreja o assessor do prefeito a olhá-lo com os olhos esbugalhados: “ Esse leu e entendeu”, pensou satisfeito, o padre. Era o dia 31 de outubro de 1517. Os papéis que o Padre Martinho Lutero afixara no dia anterior à porta da igreja, nada mais eram que sua teses acerca do pagamento cobrado pela igreja pelas indulgências dos fiéis.


Martinho Lutero nem imaginava que, enquanto acabava o sermão, aquelas folhas incendiavam o mundo, pois que, em seu nome guerras ferozes estavam por ser desencadeadas; príncipes cairiam; camponeses se rebelariam e, ele, padre que era, se casaria com uma freira... Este gesto de Lutero provocou uma reação que levou a maior parte da Europa Setentrional e Central, a constituir igrejas desligadas do Vaticano. Mas, não se tratava este evento de tão-somente um movimento religioso. O mesmo estava associado ao desenvolvimento das atividades comerciais que levaram à decomposição do feudalismo, ainda existente, mas iniciando sua decadência, diante do limiar do mundo moderno."


Fonte: Enciclopédia Novo Conhecer – Editora Abril Cultural – ano: 1977
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Martinho Lutero (1483-1546)

Nasceu em Elsieben, na Alemanha. Era filho de um empreiteiro de minas que atingiu certa prosperidade econômica.
O homem que não aceitou a venda de indulgências, influenciado pelo pai, entrou em 1501 na Universidade de Erfurt para estudar Direito, mas seu temperamento inclinava-o para a vida religiosa. Em 1505, após quase ter morrido durante uma violenta tempestade, ingressou na Ordem dos Agostinianos, cumprindo promessa feita a Santa Ana.

Estudioso, metódico e aplicado, Lutero conquistou prestigio intelectual. Em 1508, já era professor da Universidade de Wittenberg.

Em 1510 viajou a Roma, sede da Igreja católica. Regressou profundamente decepcionado com o ambiente de corrupção e avareza em que vivia o alto clero. Nos anos de 1511 a 1513, aprofundou-se nos estudos religiosos até que começaram a amadurecer, em seu espírito, novas idéias teológicas. Nas epístolas de São Paulo, encontrou urna frase que lhe pareceu de importância fundamental: "O justo se salvará pela fé".

Concluiu Lutero que o homem, corrompido em razão do pecado original, só poderia salvar-se pela fé exclusiva em Deus. A fé, e não as obras, seria o único instrumento de salvação, graças à misericórdia divina.

O rompimento de Lutero com a Igreja católica 

Em 1517, explodiu o conflito decisivo que provocou o rompimento entre Lutero e a Igreja católica.
Com o objetivo de arrecadar dinheiro para a reconstrução da basílica de São Pedro, o papa Leão X autorizou a concessão de indulgências (perdão dos pecados) aos fiéis que contribuíssem financeiramente com a Igreja. Escandalizado com essa salvação comprada, Lutero afixou na porta da igreja de Wittenberg um manifesto público - as famosas 95 teses - em que protestava contra a atitude do papa e expunha alguns elementos de sua doutrina religiosa.

Iniciava-se, então, urna longa discussão entre Lutero e as autoridades católicas que terminou com a decretação de sua excomunhão, em 1520. Para demonstrar firmeza e descaso diante da Igreja católica, Lutero queimou em praça pública a bula papal Exsurge domine, que o condenava.

A expansão do luteranismo

Ao lado dos problemas meramente religiosos, houve urna série de fatores sociais e econômicos que favoreceu a difusão das idéias de Lutero na Alemanha. Destaca-se, entre eles, o fato de a maioria das terras alemãs pertencerem à Igreja católica. A nobreza local cobiçava o domínio dessas propriedades.

Nessa época, o que chamamos de Alemanha nada mais era do que um conjunto de principados e cidades independentes. Não existia, portanto, um país unificado, com unidade política. A região fazia parte dos domínios do Sacro Império Romano Germânico, controlado pela dinastia dos Habsburg. A sede do império ficava na Espanha, e o imperador, aliado do papa, procurava preservar certa unidade em terras alemãs e a autoridade sobre seus príncipes e nobres.

Com fome de poder e de riqueza, as classes elevadas (nobreza e alta burguesia) estavam descontentes com a Igreja e o comando do imperador. Por outro lado, as classes sociais exploradas (camponeses e artesãos urbanos) também culpavam a Igreja pela situação de miséria de que eram vítimas. Havia, portanto, entre as diversas classes sociais, certa opinião comum contra a Igreja.

Liderados por Thomas Münzer, os camponeses, a partir de 1524, passaram a organizar urna série de revoltas contra sacerdotes ricos e nobres alemães, donos de grandes propriedades (movimento anabatista). Os camponeses lutavam violentamente pela posse de terras, pela igualdade social e pelo fim da exploração.

As classes dominantes, então, uniram-se para acabar com a revolta camponesa. Lutero apoiou os ricos e publicou um manifesto de ódio contra os camponeses revoltados. O texto escrito por ele dizia: “Contra os bandos camponeses assassinos e ladrões. Nada é mais terrível que um homem revoltado. É preciso despedaçá-los e degolá-los. Matá-los como se faz com um cachorro louco.

Na luta contra os poderosos, os camponeses foram esmagados. Morreram mais de cem mil e o líder Thomas Münzer teve a cabeça cortada.

Em troca do apoio dado às classes ricas, Lutero conseguiu aliados entre a nobreza e a alta burguesia. Os poderosos viram nele um homem confiável e o auxiliaram a divulgar sua doutrina religiosa pelo norte da Alemanha, na Suécia, Dinamarca e Noruega. Em 1529, protestaram contra as medidas, tomadas pelo imperador contra Lutero, que impediam cada Estado de adotar sua própria religião. Foi a partir desse protesto que se espalhou o nome protestante para designar os cristãos não-católicos.

Não sendo atendidos pelo imperador Carlos V, o grupo de príncipes protestantes formou, em 1531, urna liga político-militar (Liga de Schmalkalden) para lutar contra as forças católicas ligadas ao império. Somente em 1555 o imperador aceitou a existência das Igrejas luteranas, assinando com os protestantes a Paz de Augsburgo. Era o reconhecimento oficial da separação religiosa do mundo cristão.

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